Da dor e do Prazer.

 Le bonheur de vivre, 1905 Matisse

Le bonheur de vivre, 1905 Matisse

Quando iniciámos este projecto quisemos acima de tudo falar sobre prazer. Mais que a nossa alimentação, mais que o nosso estilo de vida, mais que sexo, erotismo, sensorialismo. É ele o ponto de partida e chegada para tudo o que fazemos.

Vivemos numa era do sofrimento-recompensa, quando a recompensa raramente compensa o sofrimento que por ela passámos. E em repeat.
Mas é o prazer que nos move - venha ele da vontade de nos proporcionarmos a nós mesmos momentos de prazer ou do querer proporcioná-lo aos outros.

Não crescemos sem dor, uma grande amiga disse há uns dias. O problema é quando não compreendemos onde acaba a dor e começa o sofrimento. A dor é inevitável, não podemos queimar-nos e não doer, não podemos amar e ser desamados e não doer, não podemos viver, errar sem sentir que isso moa cá dentro. Mas podemos escolher o que decidimos fazer com essa dor. Perceber de onde vem o prazer é compreender a dor e escolher o seu oposto. E podemos acima de tudo escolher não inflingir sofrimento ao outro. Simples assim. Na escolha.

Falamos de felicidade, falamos de contentamento e de fontes de prazer inesgotáveis, mas temos dificuldade em compreender que diariamente escolhemos a dor em vez do prazer, quando temos o mesmo potencial inerente às duas opções quando confrontados com um problema. E o prazer só é inesgotável num lugar - na maneira como vemos as coisas.

Escolher não ter dor não é o mesmo que escolher não sofrer. É como tomar um paracetamol para a eliminar em vez de compreender de onde vem e porquê, confrontá-la, trabalhá-la e sublimá-la. E por fim, vir o prazer. 

 El abrazo de amor del Universo, 1949 Frida Khalo

El abrazo de amor del Universo, 1949 Frida Khalo

Dor tem má reputação. Porque escolhê-la não é alimentá-la, mas sim usá-la como carburante para agir na direcção daquilo que queremos mudar e que queremos atingir. A dor está lá porque nos está a ensinar alguma coisa. Se sofremos com ela, é porque ainda não aprendemos.

Ter como base o prazer para esta plataforma, esta marca, esta casa, foi definir um lembrete constante da razão pela qual escrevemos, desenhamos, criamos, cozinhamos, fotografamos. É uma linha orientadora para a nossa vida, para a nossa relação com vocês, para a nossa relação um com o outro, e acima de tudo para a maneira como nos relacionamos connosco mesmos. 

Podemos dizer que somos duas pessoas diametralmente opostas nesta questão: ele vive em constante estado de prazer, eu trabalho para o alimentar diariamente. Mas por isso fiz esta escolha. Porque contra todas as probabilidades, nunca me conformei, sempre torci o nariz aos “no pain, no gain” e "é a vida" que volta e meia me atiravam para ver se colava e porque nunca concebi a ideia de viver a fazer algo que me parecesse errado ou me fizesse sofrer. Fujo da dor, sou muito medrosa. Mas contra todas as probabilidades, enfrento-a sempre. E acredito sempre que há melhor, mas trabalho por não sofrer com essa ideia (leia-se dor) e sim usá-la para encontrar esse “lugar”. Escrever sobre sofrimento é fácil. Precisamos de o compreender, de lamber as nossas próprias feridas, de o tornar perversamente mais belo para o aceitarmos um pouco melhor. Mas é muito mais interessante escrever sobre o prazer. E se estiver difícil, então escrever sobre o que dói, mas que sabemos que nos levará a ele.

 2017, Duvet Days

2017, Duvet Days

E por isso falamos de comer carne e de não a comer, do nosso estilo de vida, de erotismo, de sensorialismo, de agricultura, de sustentablidade, de arte. E por isso é tão difícil definir o Carne, Só Viva numa frase curta e concisa - as coisas raramente são curtas e concisas para mim, imaginem o drama. Está tudo ligado, vêem? 

Escolher não comer carne, tal como escolher, ou não, comer outra coisa qualquer, é um acto de consciência. E por detrás dessa consciência há uma razão e há responsabilidade. E quando se começa a desbravar este caminho, não dá para não tentar ser coerente até na mais pequena ação. Esta coisa da consciência é como o fenómeno Baader-Meinhof, uma vez instalada, está em todo o lado. Se é fácil? Nem sempre certamente. Às vezes dói, mas não sofremos.