fazer sentido.

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Não gostas da sensação de perder controlo sobre ti mesmo.
Não gostas de sentir que fazes algo de forma tão mecânica a ponto de já não compreenderes porque o fazes.
Desactualizas-te das razões que um dia te levaram a começar isso em primeiro lugar. Como quando um dia decides beber um café de manhã depois de uma noite mal dormida, e no dia seguinte repetes o ritual, e no outro também. O mesmo com o pedaço de chocolate que acompanha o café. O comer fruta sempre depois das refeições. O cigarro ao acordar. Aquela dose que repetes sempre. O bolo dos dias difíceis. O comprimido para dormir. O copo de vinho que acompanha os momentos de celebração. O beber porque é festa e é isso que se faz nas festas. Trabalhares por tua conta. Trabalhares há 20 anos no mesmo lugar. O arroz com carne e o peixe com a batata, todos os dias. O Chocapic de manhã. O sumo verde de manhã. É para o menino e para a menina. Antes de dares por isso o hábito calça os chinelos, pega numa chávena de chá e instala-se na poltrona mais confortável, numa atitude de “faz como se não estivesse aqui”. É inconsciente e automático. É confortável, ainda que te gere ansiedade, é cómodo, ainda que te sintas resignado. Não tens razão nenhuma para o fazer, mas também não tens razão nenhuma suficiente para deixares de o fazer. E um dia acordas preso e sem conseguires remover a montanha que foste montando, grão insignificante após grão insignificante, em cima de ti. 

Então tentas quebrar esse algo, ainda que o controlo esteja lá sempre, a controlar o descontrolo. 
Então tentas lembrar-te, e lembrar-te, e lembrar-te, que não tem a ver com controlo nem com descontrolo e sim com o porquê de sentires que precisas de qualquer um deles em primeiro lugar. Não importa o problema, importa a razão.
Então quando a razão e os porquês já conheces de trás para a frente e ainda assim não é suficiente, aprendes a aceitar. E percebes que quando aceitas, tudo flui. É um equilíbrio sem balança, sem dois lados, sem passado ou futuro. Um equilíbrio que só precisa de ti aqui. Um equilíbrio que não precisa de razão nem racionalização porque o É simplesmente, tal como tudo o resto É sem ter de pedir licença. Um equilíbrio que é a tua forma primordial. E quando tudo o resto parece falhar, fechas os olhos e percebes que este momento nunca falha, e é tudo o que há.

Há o fazer sentido porque tem uma razão de ser. 
Há o fazer sentido porque sentes que tem de ser.
E há o fazer sentido porque sabes que é assim. Este é o único que importa.