Psi (this is not a Manifesto)

 

DISCLAIMER: isto não é um manifesto anti-restaurantes que se podem encaixar naquilo que mencionamos em baixo. Muitos deles são bons e recomendam-se. Serão matéria para um próximo artigo.

Mas vamos a factos:
#1 - Apesar de haver cada vez mais oferta de pratos sem carnes (leia-se vegetariana e vegan) em Lisboa, parece haver uma patine cor de nhanha que percorre uma grande parte desses espaços cujo resultado é comida ok. E por "ok" entenda-se que vale tanto como um "não é mau" ou um "sim" timido naquele tom que vocês sabem qual é, que geralmente vem acompanhado com um ligeiro inclinar de ombros ou cabeça, quando vos perguntam se gostaram da comida.

#2 - Falta originalidade, falta conceito e falta acima de tudo cohones para colocar SABOR na comida. A alimentação na nossa cidade é um bom barómetro para perceber o quão Lisboa ainda está demasiado verde-alfacinha, comparando com cidades como Londres, Paris ou BerlimNão há espaço para brincadeiras nem faz-de-conta-que-somos-cool e não há dois sítios numa dessas cidades em que tenha sentido que a comida era igual. E não há atalhos (for fuck sake, um hummus é um hummus e TEM de ter tahini). Comprem uma daquelas saladas vegan embaladas no Tesco e as hipóteses de serem melhores do que muitos restaurantes novos servem por cá são grandes - been there, done that.

#3 - Parecemos esforçar-nos demasiado para tentar estar na moda, só que não. Depois o resultado é tostas de abacate, gluten-free cenas, hamburgueres de quinoa e raw cheesecakes que não merecem o dinheiro que damos por eles (nem muitas vezes o tempo que ficamos à espera para os comer). E nós adoramos tostas de abacate, gluten-free cenas, hamburgueres de quinoa e raw cheesecakes. Mas em bom. Tipo a tosta de salsa de abacate e tomate-cereja com harissa e tofu mexido em pão de fermentação lenta do Ottolenghi que comi da ultima vez que lá estive.

#4 - qualquer espaço que cheire a, chamemos-lhe de Monocle Concept - ou seja, que inclua uma ou mais das seguintes características vai aparecer nos guias da cidade e já fica lançado. 
- brunch no menu;
- as quatro coisas que referi no ponto #3
- decoração em tons pastel
- pelo menos três plantas (sendo uma delas obrigatoriamente a Monstera deliciosa e eventualmente penduradas num suporte de macramé ou em kokedama)
- tenha golden milk ou matcha latte no menu
- um cantinho com revistas como a Monocle, a Gentlewoman, a Apartamento, Cereal, Kinfolk ou a Fantastic Man.

#5 - como esses espaços muitas vezes precisam de muito mais que a comida para se fazer valer, são eles que acabam por apostar massivamente nos ditos guias e redes sociais. E porque, para pessoas como eu e a esmagadora maioria dos heavy consumers da Nova Gastronomia Lisboeta, o que não está no Instagram não existe, acabamos por nos esquecer que há outros espaços genuinamente bons, que já andavam por cá quando os outros ainda usavam fraldas, e que não precisam de mais nada a não ser boa comida, para falar por si mesmos. O Psi é um desses lugares.

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A última vez que lá estive durante a hora de almoço foi há muitos anos e pelo que me lembro a experiência não foi especialmente memorável, pelo que a nossa opinião se baseia em todas as vezes que lá temos ido jantar. Vamos por partes:

O coreto principal tem a luz ténue ideal. O volume do ruído interior é perfeito e nunca ficamos a sentir que temos de elevar a voz para nos fazermos ouvir. Muitos pontos para isso. 
Lemos algumas críticas nos guias online e vimos algumas críticas ao serviço, o que achámos super estranho porque nunca tivemos nada de mau a apontar nesse sentido (e tendo já trabalhado na área sou altamente picuinhas e exigente nesse campo). São simpáticos, receptivos e eficientes. Pode ter havido já alguma coisa menos positiva mas nada que mereça ocupar espaço na memória.

A comida é super saborosa e sabem como confeccionar certos ingredientes que exigem alguma técnica, nomeadamente o tofu, que é a coisa menos interessante da vida e que ali merece lugar de destaque em vários pratos. Tem kombucha da Xaté. 10 points for that.

 Azeitonas panadas com iogurte grego

Azeitonas panadas com iogurte grego

As entradas não são o forte deles. Achamos o falafel um pouco seco e as badjias de beringela são boas mas estavam a pedir algo mais. Ainda assim destacamos as azeitonas crocantes (apesar de terem vindo com uma quantidade desproporcional de iogurte). Como evito o trigo ao máximo não chegámos a provar a chamuça nem o roti, apesar de nos terem chamado muito a atenção.

 Dan Dan Noodles

Dan Dan Noodles

Por alguma razão nas minhas escolhas acabei sempre por recair em pratos bastante semelhantes no seu tempero, em que o tamari é bastante proeminente. Os Dan Dan Noodles foram uma aposta arriscada porque não tive boas experiências com noodles de qualquer coisa que não fosse cereal, mas a textura destes é incrível e todo o prato também. A beringela agridoce com tofu estava no ponto, cozinhada na perfeição e com uma combinação de sabores que me deliciou.

 Caril Xacuti

Caril Xacuti

 Korean Tofu Bowl

Korean Tofu Bowl

O Caril Xacuti foi um prato seguro mas que não desiludiu nada e o Korean Tofu Bowl é o preferido daqui do rapaz, que o pede sempre. Para quem é bastante intolerante ao sal pode-se tornar bastante intenso por causa do molho, mas ainda assim achei deliciosos. Falta experimentar a salada Ayurvedica num dia em que não me importas de ficar grávida de quatro meses durante os dois dias seguintes, pedirei as almôndegas de seitan ou o hamburguer.
Relativamente a esta questão, há uma boa opção de pratos sem glúten e a maioria não tem qualquer ingrediente de origem animal, sendo que todas as informações estão indicadas no menu.

 Mousse de chocolate bio e pétalas de rosa

Mousse de chocolate bio e pétalas de rosa

Não somos grandes pessoas de sobremesas, mas da última vez provámos a mousse de chocolate bio e pétalas de rosa que era bastante boa dentro do género. Não fazia bem o meu estilo, mousse para mim quanto mais densa, escura e intensa for melhor. Até hoje, nenhuma bateu a Chocolate, Azeite e Sal da Oficina do Duque

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E é isto. E só por causa disto o próximo artigo que escrevermos sobre um restaurante vai ser acerca de um Monocle Concept da cabeça aos pés, que é para não pensarem que também não gostamos. Ainda para mais lê-se a Kinfolk de graça.