In Bocca Al Luppo, ou uma pequena dissertação sobre a amizade

 

Existe aquele lugar onde vamos comer uma vez e não voltamos mais porque matámos a curiosidade e saciámos a vontade de o conhecer. Depois, existe aquele onde vamos porque é cómodo e prático e satisfaz a necessidade do momento. Façam as vossas analogias para estes dois. E depois existe aquele onde vamos e voltamos como quem volta a um bom amigo.

Esse lugar tem vida própria, a ele nos tornamos fiéis e para os seus potenciais defeitos olhamos como parte da sua personalidade, como olhamos a um bom amigo. E tal como esse bom amigo, ele é consistente, com ele sabemos para o que vamos e com o que podemos contar. Acima de tudo, tal como o bom amigo, esse lugar não é de modas, é resistente ao tempo e frágil apenas à traição - de quando tenta ser algo que não é, ou quando afirma continuar a ser algo que já não é. Há vários bons, vários preferidos, mas todos diferentes, para necessidades diferentes e ocasiões diferentes - tal como os amigos. Que coisa esta da comida que nos faz sentir como se a nossa vida dependesse dela! A verdade é que é assim, não só a um nível mais biológico, mas porque, é talvez a par com a música, o que define o tom dos nossos dias. É com eles que começamos bem o dia, o reforçamos ou emendamos a meio dele ou obtemos a redenção à noite, quando nada mais funciona.

E é sobre isso que quero escrever. Sobre esses amigos onde levo os meus amigos, os meus amores, mas também onde vou sozinha, em busca do tom perfeito para o meu dia.

IBAL_2.JPG

O In Bocca Al Luppo é aquele amigo estrangeiro bon vivant, culto e hospitaleiro que tem tudo - é bonito e veste-se bem, vive num bairro antigo-moderno - gentrificado, se quiserem - de Lisboa, toda a gente gosta dele, é saudável e consome apenas comida biológica, mas não tem medo do glúten, de comer queijo todos os dias ou de beber vinho. Não obstante disso, é cuidadoso com todos os seus amigos, tendo alternativas para todas as necessidades.

Numa estreita rua por detrás da Praça das Flores, vemos um nº5 aparentemente tímido e assertivo, com uma placa que diz tudo, para que não hajam duvidas: pizzeria bio trattoria. “Sim, é aqui, chegaram, podem entrar”, diz ela. 
Quem tiver a sorte de dar com Paola ao abrir a porta já sabe que a noite vai correr bem: é ela a cara e o sorriso da casa. Linda, simpática e com um sotaque irresistível, atenta a todo e qualquer pormenor, com uma informalidade quente que torna impossível não devolver o sorriso e dois ou três dedos de conversa.

IBAL_6.JPG

O espaço é bonito e depurado e faz-nos sentir em casa, tanto pelas pessoas que ali nos recebem como pelos pequenos pormenores que se observam, como as lindas travessas zhostovo sobre o balcão de entrada, os candeeiros, os vasos de erva-fresca no peitoril da janela, os petit-riens nas prateleiras, a luz ideal, que não choca nem faz adormecer, ou as redes debaixo da mesa para colocar os pertences dos comensais. 

Tudo isto para chegar à razão pela qual lá se entra: comer. A pizza é deliciosa. É biológica, a massa é leve, saborosa, crocante nas bordas, o recheio equilibrado e sempre bem temperada. É dificil para nós fugir da funghi e da porcini. A primeira é mais que generosa na quantidade de cogumelos frescos, finamente laminados, que se deitam sobre o delicioso molho de tomate. Já a segunda é mestra da depuração e subtileza de sabores, realçando a textura carnal dos porcini e o seu aroma terreno, acompanhados apenas pelo parmesão DOP. Só fica mesmo a faltar o molho picante da casa e um cheirinho da mistura de pimentas que tem à nossa disposição. A frescura dos vegetais da hortolana destacam-na das outras pizzas de vegetais deste mundo. A orverde é gulosa. E vale a pena experimentar as sazonais. A massa sem glúten satisfaz, ainda que fique longe da textura e consistência que só essa proteína consegue proporcionar. O queijo de tofu para opção vegan supera quaisquer expectativas. O couvert composto de foccacia de alecrim, o hummus de beterraba e a mais recente pasta de abóbora e amêndoa são o suficiente para satisfazer a fome e espicaçar a gula enquanto a pizza não vem. No que há bebida diz respeito, se houver essa necessidade, o leque de cervejas e vinhos é generoso - tanto na quantidade como na qualidade - mas nós por cá juramos pela kombucha caseira, com os pequenos pedaços de gelo por cima: um feliz e improvável encontro entre o Oriente e o Ocidente. As sobremesas terão de ficar para uma outra vez, porque nos dias em que só a pizza não  satisfaz, é impossível resistir ao chamamento dos gelados da Nannarella a 150m abaixo. Mas essa é outra amizade para outra conversa. In Bocca al Luppo é um lugar para entrar sem relógio, para ficar e demorar no saborear do que nos levam à mesa, da conversa, da boa companhia e da beleza da vida.

IBAL_3.JPG
IBAL_4.jpg
IBAL_5.JPG