Não, não é.

 
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Circular reasoning is infallible even if not exactly logical, and this is why so many of us so often resort to it—not so much to resolve baffling problems, but to be absolved of the obligation to worry about them.
Zygmunt Bauman


Casar antes dos 30. Ter filhos antes dos 40. Comer carne e peixe. Self-body-shaming. Trabalhar para o que se estudou. E 20 anos no mesmo sitio. Miserável como default state of being. As duas semanas de férias para vir à superfície e voltar a mergulhar. Tristeza generalizada. Comer fruta depois das refeições. Almoçar às 13 e jantar às 20, para ver o telejornal. Falta de propósito. Oaristos diários dentro de casa que se ouvem lá fora. Tomar a pílula. 

Andas pela vida e dizem-te que ela é assim mesmo, como quem diz vai-se andando. É reflexo automático de amor-próprio e de auto-preservação, é palavra de avó de quem não é tua avó, é palavra que outros repetem para si mesmos, mas não para ti, obrigada. 

Se toda a gente também tem-faz-é-(insira aqui o seu verbo) é porque não quer-pensa-pode-sonha-(insira aqui o seu verbo).
Mas andas pela vida a não querer igual, embora te digam que ela, a vida é mesmo assim, e outras vezes andas por ela, sem que te apercebas, a dar o litro para teres-fazeres-seres (insere aqui o teu verbo) igual porque sentes que ela, a vida, é mesmo assim. 

Não é.
És um ser único. A receita para a tua felicidade (bem estar, alegria, contentamento, o que quer que lhe decidas chamar) é única. Assim é que é. Insiste. Mesmo que pareça que não faz sentido, se gostas puxa com força e se não gostas empurra, barra com manteiga e dá marteladas até que saia de vez. 
Encontra o teu mínimo múltiplo comum. A equação certa entre o que a vida te dá e aquilo que realmente queres. Tu. Só. Não o que dizem que devias querer. Ou devias fazer, ou o que outros iguais - que não o são - a ti fazem e querem e pensam. Limpa, arruma, sacode, aspira, põe phones nos ouvidos para abafar tudo aquilo que está a interferir entre ti e o primeiro passo.

Ah. E isso vai demorar sim. Provavelmente a vida inteira. Faz parte. Aceita isso também, e aceita que tudo o que não controlas não merece o teu choro, só o teu riso.

~

E porque de tudo se faz coisas belas, um poema da Raquel Serejo Martins, daquelas amigas que seriam sempre amiga mesmo que não a conhecendo, não fossem as palavras bonitas que manda cá para fora.

Mala educación

Demorei a descobrir
isso do amor e das coisas minhas,
das coisas amáveis.
Primeiro gostei do que me mandaram gostar,
e tanto podiam mandar-me comer sopa de ervilhas
como mandar-me à lua,
as duas hipóteses igualmente válidas,
tanto pegava na colher de sopa
como vestia um fato de astronauta,
porém nunca me mandaram à lua,
não era suposto não dormir em casa
nem dispor de sucedâneos de asas.
E não mandavam, diziam apenas,
era mais subtil, educavam,
que a educação cabe em qualquer cantinho,
e competente inquilina,
os anos passaram,
adquiriu do meu corpo o prédio inteiro,
pelo que agora sou eu a inquilina.
Diziam e eu fazia, queria gostar,
depois, como quem dá um biscoito ao cão,
diziam linda menina,
e eu que não sabia se gostava,
se queria ou não queria,
pensava que queria ser uma linda menina,
mesmo sem saber o que era um espelho,
e tudo parecia normal porque todos faziam igual.

Demorei a descobrir,
aprendi demasiadas coisas inúteis,
perdi demasiado tempo,
não foi fácil encontrar-me,
nunca me ensinaram a escolher maçãs,
encontrei-me no meio de um pomar,
no meio a virtude e virtude nenhuma,
a opaca lucidez de quem,
sem o brilho dos olhos da infância,
com a miopia do medo,
aprende finalmente a mergulhar no mar,
não era um pomar era um verde de mar,
vai ser sempre escuro,
haver sempre monstros,
como andar de bicicleta
sem ter aprendido a andar de bicicleta,
sempre o medo dos pés fora do chão,
por isso a minha óbvia falta de jeito,
não há planta que me sobreviva,
nem mesmo o cacto mais mexicano,
não me atrevo com animais de estimação,
e muito menos com pessoas,
porque evidentemente mais frágeis.


Raquel Serejo Martins