É outra coisa.

 
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Comer. 
Verbo transitivo do latim comedōcon- +‎ edō (“Eu como”).
Eu como para viver, não vivo para comer.
Que o teu alimento seja o teu remédio. Só sei que nada sei. Ser ou não ser. 
Confusão.
Inserir alimento na boca, mastigar, saborear, transformar em bolo alimentar e deixá-lo fazer o seu caminho. Absorver nutrientes, etecetera. 

Devia ser simples. Há sete anos era simples. Apenas há sete anos atrás. Saladas de massa eram a norma das revistas saudáveis, essas mesmas revistas contavam-se pelos dedos de uma mão, glúten era familiar do gluteo, lactose coisa estranha, kombucha era de torcer o nariz e vegan era bicho. Emagrecer era equação fácil. Comer menos e mexer mais. 
Perdi 20 quilos enquanto comia gelados, papas de aveia ao pequeno almoço, massas, pão, manteiga, carnes, chocolates, areias, cozinhando o que fazia, valorizando o que comprava e correndo à beira da ribeira, nos entretantos. Tudo em pouquinha quantidade assim tipo passarinho, e uma depressão como bónus de bom comportamento, mas comia tudo, de tudo.

Hoje comer pepino pode fazer mal e brócolos também. Mas comer pepino também pode ajudar a desintoxicar o corpo. E brócolos também. Comer depois das 7 dá mau resultado e açúcar é filho do Diabo. Agora o trigo faz mal, daqui a uma hora já não faz afinal é o glúten, mas daqui a duas espera aí que afinal ele é danado também sim, senhor. Consome-se bactérias, a quinoa é filha de Deus, beber erva ao pequeno-almoço e batidos cor de detergente, o abacate no trono dos sete reinos e o óleo de côco é elixir da vida. Come-se para perder peso, come-se para ganhar peso, come-se para ganhar músculo, come-se para ajudar o intestino, come-se para ajudar o pensamento, come-se para tudo o que a menina quiser.
Puta da vida - e da comida - quando achas que já lhe começas a apanhar o jeito afinal não sabes a ponta.

E enquanto isso eu só penso na torrada com manteiga e café com leite da minha mãe linda, saudável e incrível, todas as manhãs, desde que me lembro, no pão com queijo à mesa antes do jantar, no gelado e sobremesa ocasionais, no tudo que comia e no nada de que se privava e na ausência de tudo aquilo que vejo daqui na bancada da minha cozinha, como que compensando a parca existência de medicamentos na gaveta da casa de banho.

Simplicidade. Comer o que o corpo pede. Calar tudo o resto e focar. Resistir a pesquisar no google sobre o que ele precisa, para parar por uns momentos e ouvi-lo, simplesmente. Um quadrado de chocolate. Algo salgado. Um grande prato de arroz. Melancia. Cogumelos. Ovos. Sumo de laranja. Um chili de feijão. Figos. Água. Ás vezes é só isso. Água. Afectos. Amor, do dar e do receber. Silêncio. Desligar. Sexo. Desenhar. Caminhar. Conversa. Família. Brincar. Mar. Sol. Às vezes o alimento é outra coisa.

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