Objectivos

Sou uma pessoa de objectivos. Faço as coisas com objectivos. E desfaço-as pela inexistência ou impertinência deles. Posso usar essa palavra aqui? 

Há dez anos comecei a escrever com um objectivo. Tinha um problema. Vários até. Escrever e cozinhar foi terapia. Foi a maneira de trabalhá-los, de pensar sobre eles e acima de tudo de não pensar sobre eles. Foi remédio e profilaxia. Publicar o que escrevia e o mundo que descobria na cozinha era tornar claro para os outros aquilo que o olhar não deixa. Era mostrar a minha casa. Gostar um bocadinho mais de mim, perceber que até conseguia. Era alimentar a barriguinha e o ego também, sim. Monólogos. Conversas egoístas para quem quisesse parar e escutar. A escrita é o que fica por falar.

E depois a vida acontece. Está sempre a acontecer, mas às vezes parece que acontece mais que outras. Defines planos e objectivos e vez as coisas acontecer, mas depois é como quando fazes uma viagem de comboio, adormeces e acordas já no fim da linha. Foste confiando e nem sabes como foste ali parar.
Mas está tudo bem, porque aquele fim da linha é o início de outra linha qualquer. E partes daí. E vais andar sempre assim e a aprender que, na verdade, o melhor a fazer é encontrar algo que fazer em cada paragem, mesmo que o teu objectivo seja um só. 

Objectivos. Parei de escrever porque já não funcionava. Desenhar já não funcionava. Fotografar já não funcionava. Até cozinhar já quase não funcionava. Se calhar até funcionava. Mas é como uma espinha que temos no dedo que nos doía horrores até termos partido o pé: esquece lá a espinha. O foco agora é outro. Então funcionava o trabalho, o amor, a paixão a acontecer, um outro mundo inteiro a descobrir e as coisas a acontecer depressa demais para que conseguisse processá-las em palavras. 

“Esforçar sem forçar”. Perceber que as coisas tem o seu tempo para acontecer. Que os prazeres são reais, sendo que nada é real ou tudo é tão real quanto queiramos que seja. Perceber que agora, finalmente. O pé sarou e entretanto a espinha desapareceu sem que desse por ela. Agora o que há é a simples vontade de criar e partilhar. O prazer de escrever e de cozinhar a quem conseguir chegar. Fazer não por ser a melhor, por ser diferente ou por ser irreverente, porque não há melhor, diferentes somos sempre e todos e irreverente é uma questão de perspectiva. Fazer por precisar e querer. Fazer com o objectivo de dizer olá, estou aqui, tenho isto para te dizer, foi isto que já vivi e é isto que ainda estou a aprender. 
Tudo o resto é bónus. 

E agora aqui fica este salteado de feijão branco, cogumelos shiitake e tomate seco. A melhor coisa que fiz nos últimos tempos, diferente de tudo o que tenho visto e de sabores irreverentes. Mas o que é que isso interessa, afinal?

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