F.A.Q (and others not so much) #1

 
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Porque queremos contribuir para o esclarecimento daquele tio que faz sempre a mesma pergunta todos os anos à mesa de Natal, ou para elegantemente colocar no lugar o amigo subtilmente escarnecedor que só vemos uma vez por ano na reunião de turma, ou para esclarecer de forma rápida e eficaz aquela amiga de uma amiga de uma amiga que conhecemos num churrasco de fim-de-semana e que mostra um repentino e inusitado interesse na nossa dieta E porque queremos partilhar com aqueles que se identificam com os nossos valores e atitudes as nossas respostas àquelas perguntas que nos deixam sem saber se devemos iniciar uma longa discussão existencial, rir, chorar ou espetar o dedo no olho a alguém (são raras as ocasiões, mas pode acontecer).

Porque é que não comem carne?
De um ponto de vista ético, porque respeitamos todos os animais, porque podemos viver uma vida plena, saudável e cheia de prazer em comer tudo o que quisermos sem pormos em causa o bem-estar animal e sem que animais tenham de morrer pela nossa indulgência.
De um ponto de vista de saúde, está mais que provado que carnes vermelhas fazem mal, e que a maneira como toda a carne e peixe são criados, produzidos, alimentados e envenenados com antibióticos para optimização da sua produção torna qualquer um desses produtos assustadoramente nocivos para a saúde.

Ok, mas um bifinho de vez em quando ou um peixe grelhado também não faz mal, e não vai ser por não comerem vez de vez em quando que vai fazer alguma diferença. Afinal de contas, o bicho já está morto.
Em última análise, não comemos porque não sentimos falta, não queremos. Nós podemos comer carne, mas não queremos. Há uma grande diferença. Quanto há segunda questão, bom, tendo em conta que para produzir um hambúrguer são necessários em média 3000 litros de água, nós diríamos que não o comer já faz uma ligeira diferença, não? Se toda a gente pensasse, nem que fosse uma vez por semana, o oposto dessa afirmação, imagina então a repercussão. 

Anda lá, prova só isto, está delicioso!
Eu carne, só viva.

Então mas e as alfaces e as cenouras, também são seres vivos!
É mesmo preciso explicar a diferença entre a imagem de uma cenoura a ser colhida e uma vaca a ser morta?

Eu percebo as tuas questões e até partilho da mesma opinião que tu em muita coisa, mas imagina que um amigo teu que já não vês há muito tempo te convida para jantar. Ele não sabe que te tornaste vegetariano/vegan e faz uma incrível lasanha de carne. Porque é que hás-de recusar? É uma refeição apenas, aquela pessoa oferece-te algo que preparou com toda a dedicação e tu vais recusar só porque decidiste que não comias mais carne? Isso para mim é obcessivo e até uma certa falta de consideração pelo teu amigo. Eu tenho as minhas convicções mas quero viver tranquilo no meu dia a dia.
É uma questão de valores. Os meus valores fazem parte da minha constituição pessoal, estão lá e sei que o que quer que faça vai sempre ao encontro deles e não contra eles. Não acredito em atirar lixo para o chão. Se um dia o fizer porque não encontro nenhum caixote ali perto faz mal? Possivelmente não, mas vai contra os meus valores e por isso não o faço. Não bebo alcool porque não gosto de perder consciência, ainda que mínima, sobre mim e o que me rodeia. Se um dia beber porque está toda a gente a fazê-lo faz mal? Provavelmente não, mas se calhar devo questionar porque tenho de o fazer só para agradar os outros e reequacionar os meus valores.
É altamente improvável que não avisemos com antecedência as pessoas que nos convidam para uma refeição, que temos uma dieta maioritariamente vegan. No entanto, nessas ocasiões, e porque não queremos tratamentos especiais nem gerar ansiedades desnecessárias a ninguém, levamos um prato para que toda a gente possa comer. Para além de ser stress-free para qualquer um, é uma óptima maneira de introduzir a nossa alimentação a pessoas que acham que só comemos alface.

Dizem isso da carne e do peixe mas relativamente aos lacticinios e ovos tens exactamente a mesma atitude que eu!
Não somos vegan porque não sentimos necessidade. Em casa temos uma dieta puramente vegetal e é assim que pretendemos continuar. No entanto, gostamos de comer fora, gostamos dos nossos amigos e familiares e gostamos ainda mais das duas coisas juntas. Permitimo-nos a indulgência de um prato com queijo muito ocasionalmente ou até uma bola de gelado porque consumimos de forma consciente e equilbrada. E ainda que lacticinios e ovos possam realmente fazer mal à saude e a sua origem biológica ser muitas vezes questionável, fazemos o que sentimos que nos faz bem, e estar junto daqueles que amamos a consumir um risotto de cogumelos faz muito melhor à saúde que ficar em casa tristes ou revoltados porque não há nada para nós. Por último, acreditamos num mundo em que possamos servir os nossos animais cuidando deles e que eles nos possam servir de volta, sem serem violentados. Essa é a nossa noção de equilibrio.

Ah mas matam mosquitos!
Sim. E pulgas e piolhos. Tudo o que possa interferir directamente com a nossa saúde, obviamente. 

Então e a proteína?
Consegues encontrar nos legumes e vegetais todos os aminoácidos necessários para uma dieta equilibrada com proteína. Se temos de ter atenção ao que comemos? Claro que sim, mas e não temos todos? Até o movimento vegetariano/vegano ter ganho terreno, ninguém falava da Proteína, da vitamina B12, da vitamina D, do Ferro, do Iodo.
A grande maioria das pessoas não tem consciência da sua alimentação, tendo deficiência de fibras, vitaminas e minerais.  

Falaram na B12, como justificam então que seja natural uma dieta vegan se não encontramos essa vitamina de jeito nenhum no reino vegetal?
Já coloquei essa questão algumas vezes e essa é também uma das razões porque não acreditamos numa dieta estritamente vegana. A B12 é uma vitamina de origem bacteriana. Antigamente era seguro comer certos frutos e vegetais sem os lavar e obter a B12 naturalmente. Hoje em dia devemos lavar tudo, mesmo o que é biológico, o que nos elimina por completo essa hipótese. Podemos usar como argumento o facto de não querermos tomar suplementos ou alimentos fortificados para estarmos saudáveis, mas a alternativa é consumir ovos ou lacticinios que, se por um lado tem a B12, por outros são assustadoramente nocivos para o nosso sangue e coração. Consumimos ovos e queijo em doses muito, muito, muito pequenas, mas não porque tem B12 e sim pelas razões já descritas acima. Isso, juntamente com um suplemento semanal de B12 dá-nos o aporte necessário que necessitamos. Mas nunca tentamos converter, apontar dedos ou dizer a alguém como fazer. O mais precioso que temos na nossa vida é a liberdade. Sentimo-nos felizes por podermos escolher e não termos de encaixar em conceitos fechados. Existe todo um mundo de arco-íris pelo meio e nós gostamos muito de flutuar nele. Tudo o que queremos fazer é informar e passar a mensagem. A partir do momento em que sai das nossas mãos, cada qual é livre de escolher, tal como nós somos. Mais sobre isso aqui.