Chocapic

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Desde que me lembro até aos meus 16 anos de idade, o meu pequeno-almoço e lanche eram constituidos por uma tigela de Chocapic com leite. Ocasionalmente Golden Grahams, Weetos ou Choco Crispies, só para dar aquela variadela para depois voltar ao que sabia ser a fórmula certa. Creio que no primeiro dia em que ganhei a coragem de trocar a dita tigela por uma sandes e sumo ao pequeno-almoço foi o principio do fim, o primeiro dia do resto da minha vida, o primeiro passo - como quiserem chamar - de tomada de consciência sobre a minha vida. Foi um processo espartano. Ainda é muitas vezes. Essa consciência era mais da minha mãe que minha, e ia pouco além da constatação de o meu avô ter deixado de me chamar "esparguete", de o meu corpo estar claramente a distanciar-se do da Rita e da Inês, do aumento acelerado do nº das minhas calças e que talvez essa generosa toma diária de açúcar, trigo refinado e leite duas vezes ao dia, deixando-me com fome uma hora a seguir, pudesse ter alguma coisa a ver com a questão (também o facto de a puberdade ser uma cabra e as sandes de maionese de atum que devia comer em média 3 vezes por semana, mas isso é outra história).

Só uns bons anos mais tarde o açúcar invertido, o acessulfame K, o óleo de palma, as gorduras hidrogenadas e o MSG começaram a fazer parte do meu léxico e leque de razões para nem sequer sentir vontade de comer Chocapics, chocolates Crunchs ou bolachas Chipmix - se virem aqui um padrão entre estas três marcas, não é por acaso. 

Se o Chocapic fez de mim uma criança menos saudável? Acho pouco provável, nunca irei saber. Não é algo que me tire o sono ou seja tema para psicanálise. Sinto-me feliz, da mesma maneira que o gosto da Cerelac cheia de grumos faz parte do meu universo infantil. O crepitar dos cereais quando os comia com leite aquecido. O aroma. Os lanches em frente à televisão. Uma memória muito particular que tenho da minha tia, que os servia num prato de sopa de vidro, dando-lhe um sabor que agora mesmo consigo sentir. Sinto-me feliz, da mesma maneira que me sinto feliz por tudo o que já vivenciei e experienciei de bom na vida: nem tudo pode ter feito bem, mas deu-me prazer e, acima de tudo, gerou mudança. Hoje simplesmente já não faz sentido para mim, como não faz sentido comer carne ou peixe ou beber leite ou beber até cair. Já passou. 

Acredito piamente que se nunca tivesse feito o que fiz, não teria um comprometimento e consciência tão grandes com e das minhas escolhas. Uma grande força vem do acto de assumir conscientemente a responsabilidade por cada escolha na nossa vida, do papel de demissão ao caminho que tomamos para ir trabalhar todos os dias, do que decido colocar no meu prato ao que decido não decidir, de um não a um sim.