The V Word.

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Sempre passei por um mau bocado ao ter de responder a qualquer questão sobre o que faço. Talvez por receio do que fossem pensar de mim, por me considerar uma fraude, por ser demasiado consciente do peso dessa palavra, ou por não fazer ideia do que realmente significa, mas acima de tudo porque sempre fiquei com um nó na garganta por me sentir a trair a minha própria razão. Como pode uma pessoa resumir-se ao que o significante e os infinitos significados de um signo encerram? (desculpem a terminologia, defeito de formação).

Não sei quando surgiu o hábito de criarmos gavetas para sentir que temos um maior “controlo da situação”, que não é mais que mera ilusão. Digo quando surgiu porque é uma convenção, uma invenção - se assim não fosse, não haveria excepções à regra. Não gosto de gavetas. Não sou Mulher e a condição que essa palavra contém, não  sou gorda, não  sou magra, não  sou política nem  sou artista, não  sou cientista, não  sou designer, não  soucareca, não  sou gay, não  sou lésbica, não  soubranca, não  sou preta, não  sou cigana, não  sou americana, não  sou portuguesa, não  sou intelectual, não  sou do Cacém, nem  sou de Cascais, não  sou organizada, tão-pouco  sou caótica, não  sou católica, não  sou budista, não  sou vegetariana, não  souvegan, não  sou boa e não  sou má. Não somos aquilo que as palavras encerram. As gavetas, por grandes que sejam, são sempre limitadas, tanto naquilo que encerram como naquilo que abarcam. Dizer que somos alguma coisa é negar as outras partes que existem em nós, porque somos infinitamente mais complexos que um par de cuecas dentro de uma gaveta. Somos mais completos, mais cheios de tudo, maiores que qualquer coisa que possa caber numa gaveta, num armário, num quarto. Somos selva, somos universos, somos, acima de tudo mudança. 

Não digo sou vegetariana da mesma maneira que nunca disse sou omnívora. Isso em nada me define. Ser algo é antes de mais uma maneira de estar, são valores, são formas de pensar e de agir em conformidade. O que é ser vegan? O que é ser vegetariano? 

Arranjem-me uma gaveta para alguém que todos os dias acorda e decide de forma consciente agir de forma a deixar o Mundo um bocadinho mais saudável e mais bonito do que o dia anterior, e que ocasionalmente compra uma manga, uma papaia ou abacates exportados, que faz todas as suas compras com sacos de papel mas que compra roupa mais do que devia, em sitios onde não devia, que gosta de palavras como kitsunkoroi, komorebi e lalochezia, alguém que em casa não come nada de origem animal mas que não pensa duas vezes quando tem nas mãos um chausson aux pommes quente daquela boulangerie na Avenue de la Répuplique em Montrouge ou na dúvida da existência de ghee naquele Vanta Sadeko(quando sim, tu sabes que ela está lá), alguém que recusa a objectificação e o culto do corpo mas que se pesa quase todos os dias, que assina petições mas que na verdade nunca foi a uma manifestação, alguém que não consome açúcares refinados, mas que nunca recusa um gelado da Nannarella (e o tal chausson aux pommes), alguém que ouve Eminem e Olafur e Janis e Alabama Shakes e The National e Elvis e Mozart com o mesmo prazer, alguém que gosta de falar tanto como gosta de ouvir. Entre outros. Arranjem-me essa gaveta, e eu enfio-me nela.