Vinte seis anos e trezentos e sessenta e quatro dias.

 
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Vinte seis anos e trezentos e sessenta e quatro dias.


Até hoje nunca soube responder com convicção se acreditava que as pessoas podem realmente mudar ou não. Não compreendia o sentido dessa palavra até perceber que o problema não está na palavra mas sim na pergunta. A questão não é se podemos mudar ou não, porque podemos e estamos constantemente a fazê-lo, o tempo todo. A questão é o quanto dessa mudança é moldada de acordo com a nossa intenção.
Por muito que estejamos activa e conscientemente a mudar algo em nós, há a vida toda a acontecer ao mesmo tempo que tem muito mais peso do que a nossa vontade. No entanto, se mudamos porque a vida acontece, também mudamos de acordo com a resposta a que lhe damos. A conclusão a que posso chegar é de que a coisa mais insignificante, mais formiga na terra, mais grão de areia, mais gota de água na janela, é estimulo para resposta. E a mudança não está no papel, nem na cabeça nem nas conversas de café, está na resposta. A resposta é reação e ação para outra reação. (Gostava de introduzir aqui uma analogia vegetariana que siginifique o mesmo que pescadinha-de-rabo-na-boca mas não conheço nenhuma).
Então para mudar, procuro estímulos que me levam mais longe, mais perto daquilo que procuro. Coisas que moldem as minhas respostas, que por sua vez edifiquem a mudança que desejo, que por sua vez gera outras respostas.

Não como carne nem peixe há três anos. Como ovos ou queijo apenas em último recurso, ou se tenho a certeza a absoluta que vem de uma agricultura sustentável e éticamente responsável. Quem me conhece sabe o quão improvável este cenário era há pouco menos de quatro, cinco anos atrás - com o queijo e os ovos há muito menos. E no entanto, o que sinto que aconteceu em mim não foi tanto uma mudança, mas antes o despertar de algo que sempre soube ter cá dentro, mas que até então mantive resguardado, como que protegido com medo do que quer que viesse a perder - fosse isso o prazer de comer carne, as memórias associadas a esse acto e a minha própria autenticidade. Foi pôr em causa o que já escrevi à volta da carne, antigas referências e inspirações, abandonar desejos, repensar valores e quebrar tradições. E o que aconteceu foi tão natural como um dia acordar e decidir que já não quero mais participar nisto, não preciso, não me faz falta. Não é assim tão importante. Na verdade não é nada importante (obviamente não me refiro à realidade da industria agropecuária mas ao acto de comer carne). É carne morta, putrefacta. É carne de um animal que só em situações extremas teríamos coragem de o matar deliberadamente para consumo. Porque atribuímos tanta importância a uma coisa que: gera um sofrimento interminavel a milhões de animais diariamente, um impacto ambiental colossal, cujos modos de produção são éticamente errados e produzidos regra-geral com foco puramente económico, não sabe particularmente bem e, last but not least, não nos faz bem? 

O principal obstáculo à mudança é a cultura. É muito mais fácil mudar a cabeça de quem pensa por si do que aqueles que se agarram nas ideias de outros para alimentarem as suas convicções. Quando tudo já foi dito, partilhado, filmado, escrito, o que é que resta?

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Este bolo parte de uma receita que fiz há 6 anos - com ovos, manteiga, queijo-creme e açúcar refinado. Esta nova versão bate a antiga aos pontos. Fi-la aos vinte seis anos e trezentos e sessenta e três dias. Fi-la para celebrar, mas acima de tudo para oferecer aos que mais amo. É é uma elogia à mudança, aos que não tem medo de mudar, aos que tem mas mesmo assim o fizeram, aos que me inspiram, aos que escolhem tirar a cabeça do buraco.

Receita para este incrível Bolo de laranja, romã e amêndoa com cobertura de iogurte de côco aqui.
 

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